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Capítulo 17 · Parte VI

Como adaptá-lo à sua faculdade sem o desfigurar

› Síntese

O modelo formula-se para a universidade completa, mas vive-se a partir de uma faculdade concreta: filosofia e engenharia não incorporam a IA do mesmo modo. O capítulo explica como o adaptar a cada unidade sem o converter numa versão recortada que o desfigure.

O modelo formula-se à escala de universidade completa, mas quem ensina, investiga e se liga ao território fá-lo a partir de uma faculdade concreta, com a sua disciplina, a sua tradição e a sua escala. Uma faculdade de filosofia e uma de engenharia de software não incorporam a inteligência artificial do mesmo modo, nem deveriam: operam com quadros profissionais distintos, escalas diferentes e articulações particulares com o meio externo. Por isso o modelo não se aplica às unidades como uma versão reduzida do modelo institucional, mas cada unidade traduz-o à sua especificidade com autonomia operativa, sem perder coerência com o conjunto. Particularizar não é encolher: é traduzir.

A pergunta do capítulo é de escala: como opera SinergIA à escala de faculdade, departamento ou curso, o que se traduz da direção universitária para a unidade e que decisões competem especificamente à unidade? Sustento que a particularização opera com três princípios. Primeiro, a unidade académica é uma instância operativa do modelo, com autonomia decisional articulada com a coerência institucional. Segundo, a tradução das diretrizes universitárias em diretrizes de unidade opera na interface entre a AIUAT institucional e uma AIUAT replicada na unidade, quando a escala o justifica, ou uma instância funcional equivalente quando não. E terceiro, a equidade operativa entre unidades é responsabilidade institucional, não autonomia de cada unidade. Desenvolvo-o em cinco secções, com um caso aplicado de uma faculdade de engenharias.

17.1A unidade académica como instância operativa do modelo

A unidade académica é uma instância operativa do modelo porque as funções constitutivas da universidade —docência, investigação, extensão— operam especificamente em cada unidade, com autonomia académica articulada com a coerência global. A unidade sustenta currículos próprios, práticas pedagógicas particulares, ciclos investigativos específicos e articulações com setores concretos do meio externo. A incorporação da inteligência artificial opera, por tanto, não só à escala institucional, mas também à escala de unidade, com decisões operativas que cada uma toma articuladas com o modelo global.

Essa autonomia decisional opera em três planos. No das diretrizes, a unidade articula diretrizes próprias coerentes com as institucionais, traduzidas às suas especificidades disciplinares. No da operação dos AIA-i, a unidade articula com o AEI institucional as suas particularidades curriculares: o seu corpus disciplinar, os seus critérios avaliativos, as suas sequências didáticas. E no da articulação com o meio externo, articula com o AME e o AIA-i-E os seus contactos territoriais específicos: o setor produtivo da sua disciplina, as comunidades com que trabalha, as redes profissionais em que participa. A autonomia da unidade não é independência institucional, que fragmentaria o modelo; é articulação específica com a coerência do conjunto.

17.2Tradução de diretrizes institucionais em diretrizes de unidade

A tradução opera numa interface formalizada entre a AIUAT institucional, que formula as diretrizes universitárias, e a instância equivalente na unidade: o conselho de faculdade ou de departamento, com a articulação funcional da AIUAT. Distingamos que decisões ficam em cada nível. No nível institucional ficam as que articulam a universidade completa: a política normativa, a articulação com os documentos institucionais reitores, as aquisições CTA de efeito global, o critério de discriminação entre AIA-i autêntico e wrapper, as métricas relacionais do modelo e a articulação com as dimensões regional-nacional e internacional.

No nível de unidade ficam as que articulam a operação disciplinar específica: a tradução do critério de intervenção significativa para as práticas avaliativas próprias da disciplina, a articulação do corpus disciplinar com o AEI institucional, a particularização das pedagogias emergentes à disciplina, e as decisões sobre articulação com setores concretos do meio externo. A articulação entre ambos os níveis opera na revisão semestral, onde a AIUAT institucional e as instâncias de unidade cruzam informação, identificam tensões específicas e formulam ajustes coerentes com a operação global. Não é uma hierarquia de ordens que descem, mas uma articulação de decisões que se encontram em dois níveis.

17.3AIUAT replicada ou instância funcional equivalente

Quando convém que uma unidade tenha a sua própria AIUAT e quando basta uma instância funcional mais ligeira? A AIUAT replicada opera quando a escala da unidade justifica uma composição interdisciplinar articulada, com os critérios qualificadores cumpridos e articulação com a AIUAT institucional. Como referência, em universidades grandes as faculdades de mais de três mil estudantes e duzentos docentes costumam justificar uma AIUAT replicada com presidência própria. As faculdades médias, de entre quinhentos e três mil estudantes, operam com frequência com uma instância funcional equivalente articulada com a direção da faculdade e com representação na AIUAT institucional. E as pequenas, de menos de quinhentos estudantes, costumam articular diretamente com a AIUAT institucional sem replicação.

Cinco critérios articulam esta decisão. O primeiro é a escala operativa da unidade: quantidade de estudantes, docentes, cursos, ciclos investigativos. O segundo é a especificidade disciplinar: algumas disciplinas requerem articulação mais densa do que outras, como a engenharia de software com a inteligência artificial, as ciências da saúde com o diagnóstico assistido, ou a educação com os dispositivos pedagógicos. O terceiro é a autonomia académica da unidade, que varia consoante a universidade. O quarto é o orçamento disponível para sustentar uma AIUAT replicada com os seus critérios cumpridos. E o quinto é a articulação com os conselhos académicos vigentes. A decisão não é de prestígio —ter AIUAT própria não é um galardão—, mas de adequação entre a estrutura e a escala real da unidade.

17.4Caso aplicado a uma unidade académica

Ilustro tudo o anterior com um caso, que opera como compósito construído a partir de padrões documentados em unidades que adotaram cedo modelos articulados; o caso específico de uma universidade concreta fica como referência para versões posteriores. A unidade do compósito é uma faculdade de engenharias de uma universidade de tamanho médio —uns vinte mil estudantes na universidade completa, dois mil e quinhentos na faculdade—, com cinco cursos de licenciatura e dois de pós-graduação. A faculdade partia do estádio E1 no semestre zero; em quatro anos de operação articulada chegou ao E4 com articulação regional-nacional incipiente.

Tomou cinco decisões operativas ao longo dessa trajetória. A primeira foi constituir uma instância funcional equivalente à AIUAT —sem AIUAT replicada formal—, com cinco pessoas de composição interdisciplinar, articulada com a AIUAT institucional e com assento no conselho de faculdade. A segunda foi construir de maneira iteractiva um AEI específico da faculdade, com corpus de engenharia próprio, articulado com o AEI institucional. A terceira foi reformular a avaliação sob o critério de intervenção significativa, começando por duas unidades curriculares piloto e escalando para as cinco matrizes em dois anos. A quarta foi articular com o setor produtivo regional, através do AIA-i-E institucional, três projetos universidade-empresa de engenharia. E a quinta foi sustentar uma formação docente com metodologia iteractiva, com uma trajetória documentada de elevação do corpo docente na banda de iteracção avançada que passou dos vinte e três aos sessenta e quatro por cento em quatro anos.

Vale a pena deter-se nesse último dado, porque condensa a tese do capítulo dezasseis: a faculdade não avançou por comprar melhor tecnologia, mas por elevar a competência do seu corpo docente para iterar com ela. As cinco decisões documentaram-se com rastreabilidade reconstrutiva, acessível à instituição para a sua aprendizagem. O caso não é uma receita a copiar —cada unidade tem o seu contexto—, mas uma ilustração de como se vê uma trajetória de particularização quando se sustenta durante quatro anos.

17.5Equidade operativa entre unidades

Fecho com uma questão de justiça que o modelo não deixa ao acaso: como sustentar a equidade entre unidades com desigual maturidade e desigual capacidade. A equidade operativa é responsabilidade institucional articulada, não autonomia de cada unidade, e opera em três planos que a AIUAT institucional sustenta. Na formação docente, a instituição fornece um programa acessível a docentes de todas as unidades, com metodologia iteractiva e sem custo para o docente, com critério de cobertura ampla que evita concentrar-se nas unidades já competentes. Na construção de AIA-i, constrói os dispositivos institucionais com corpus que articula com todas as unidades, sem privilegiar as de maior capacidade própria. E na atribuição orçamental, reparte com critério de equidade relacional: não uma atribuição uniforme que reproduz a desigualdade de partida, mas uma articulada com a maturidade de cada unidade que sustente a trajetória das menos avançadas.

Esta opção tem implicações que a instituição deve argumentar, porque não é a mais cómoda. Investir nas unidades já avançadas produz resultados visíveis mais depressa e fica melhor num relatório; investir nas menos avançadas produz resultados mais lentos mas amplia a base institucional de operação do modelo. O modelo opta sistematicamente pela segunda, sem descartar a primeira, porque uma universidade cujo modelo só opera em duas faculdades brilhantes enquanto o resto fica para trás não opera, em rigor, sob o modelo: opera sob o nome em duas ilhas. O capítulo final fechará o livro com o que o modelo pede à instituição que assume esta opção.

Baixar o modelo à unidade académica é o que evita que fique num documento da direção universitária que ninguém aplica nas salas de aula. E fazê-lo com equidade é o que evita que a universidade se parta em duas: as faculdades que iteram com o futuro e as que continuam reguladas pelo passado.

A unidade opera com diretrizes próprias, mas toda universidade necessita, em algum momento, de um documento normativo formal sobre a inteligência artificial. O próximo capítulo articula essa política normativa com os documentos institucionais reitores, e esclarece por que o modelo reserva o termo «política normativa» para este ponto preciso do livro.