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Capítulo 8 · Parte III

Porque não se pode mover uma peça sem mover o resto

› Síntese

Duas universidades podem usar o mesmo vocabulário e operar de forma oposta: uma acumula componentes soltos, a outra sustenta a coerência entre todos os seus planos. O capítulo mostra por que em SinergIA nenhuma decisão é isolada: mover uma peça move o resto.

Tome duas universidades que tenham adotado o mesmo vocabulário sobre inteligência artificial: as mesmas dimensões, os mesmos dispositivos, as mesmas listas. Pergunte-lhes, a cada uma, por que tomaram uma decisão concreta —por que priorizaram a docência sobre a administração, por exemplo—. Uma responderá enumerando o que já tem em marcha: este componente cumprido, aquele pendente. A outra responderá explicando como essa decisão é coerente com o que decidiu nos restantes planos. Essa diferença na resposta não é de estilo: é a diferença entre operar com um inventário e operar com um modelo. Um inventário enumera; um modelo articula. Um inventário soma componentes; um modelo opera pela relação entre eles.

A pergunta que organiza este capítulo aponta justamente para aí: o que faz com que um conjunto de dimensões constitua um modelo e não um inventário, e como articula o AIA-i o multidimensional com o multirrelacional para produzir sinergia em sentido rigoroso? Afirmo que SinergIA é modelo, e não inventário, por duas propriedades que o constituem. A primeira é a multidimensionalidade: o modelo opera ao mesmo tempo em cinco dimensões de alcance e três dimensões transversais que não são agregáveis, porque cada uma tem lógica própria e se articula com as demais por relações específicas. A segunda é a multirrelacionalidade: o modelo articula os seus componentes em relações direcionais precisas, não em reciprocidade genérica, com o AIA-i como dispositivo articulador e a iteracção como princípio transversal. O capítulo fecha mostrando a matriz operativa de cinco por cinco que cruza as dimensões de alcance com os AIA-i, e o que dela decorre para o diagnóstico institucional.

8.1O que faz com que um conjunto de dimensões seja modelo e não inventário

Precisemos a diferença operativa, porque dela depende todo o resto. O inventário, como produto institucional, opera por cumprimento elemento a elemento: a instituição verifica que cada componente esteja presente e declara um cumprimento agregado, uma soma. O modelo opera por coerência entre planos: a instituição verifica que as decisões tomadas num plano sejam consistentes com as dos demais, e pode reconstruir a sua trajetória como um argumento articulado. A diferença observa-se empiricamente, e da maneira mais simples, quando se pergunta à instituição por que tomou uma decisão: a que opera por inventário responde com o elemento cumprido; a que opera por modelo responde com a coerência argumentada entre planos.

SinergIA opera como modelo porque as suas dimensões se articulam pela iteracção como princípio transversal, pelo AIA-i como dispositivo articulador e pela AIUAT como operador institucional que sustenta a coerência. E aqui o termo sinergia já opera como categoria: a sinergia, em sentido rigoroso e ancorada no AIA-i, é a propriedade emergente do modelo articulado, aquilo que nenhum componente entrega em separado. É, precisamente, o que distingue SinergIA de qualquer inventário que use o mesmo vocabulário sem a articulação interna que o sustenta. Duas instituições podem nomear as mesmas cinco dimensões; só uma as articula.

8.2A multidimensionalidade do modelo

Vejamos por que estas dimensões de alcance e estas transversais, e não outra configuração. Que tenham resultado cinco de alcance e três transversais é um achado da análise, não um número escolhido por ser redondo. As cinco de alcance correspondem a planos institucionais onde o modelo opera com lógica própria: a dimensão pessoal, que é o sujeito na sua relação com a inteligência artificial; a institucional, que é a universidade como totalidade orgânica, com quatro subdimensões articuladas; a regional-nacional, que é a universidade dentro do seu sistema territorial; a internacional, que é a universidade no ecossistema global; e a investigativa transversal, que é a produção de conhecimento que atravessa as anteriores. O número cinco não é arbitrário: corresponde aos planos que a pilotagem na Universidade Tecnológica de Pereira e a formulação que desenvolvi durante a minha estadia no Instituto Politécnico de Bragança identificaram como necessários e suficientes para articular operativamente a incorporação.

As três dimensões transversais —a soberania algorítmica com realismo operativo, a pedagógica e psicossocial, e a ética— são transversais em sentido estrito: atravessam todas as de alcance e operam em cada uma com expressão própria. A transversalidade não é subordinação; as transversais não estão acima das de alcance, mas articulam-se com elas de outro modo. Há aqui uma decisão arquitetónica da versão 2.0.3 que convém antecipar: a proteção de dados não é uma subdimensão da dimensão ética, mas da soberania algorítmica. O capítulo doze desenvolverá esta diferenciação, que não é pedante mas operativa, porque muda o tipo de dispositivo com que cada coisa se governa.

8.3A multirrelacionalidade entre dimensões e AIA-i

Ora bem, como se articulam as cinco dimensões de alcance com os cinco AIA-i do modelo? A resposta importa porque não é uma correspondência simples de um para um, e supor que o é deforma o modelo. Os cinco AIA-i —AIPA, AEI, ARI, AME e AIA-i-E— organizam-se por domínio funcional, não por emparelhamento com cada dimensão. Isto ocorre porque a dimensão institucional contém quatro subdimensões —administrativa, académica, de investigação-inovação-empreendedorismo, e de extensão e apropriação social— que se distribuem por quatro AIA-i, enquanto o quinto, o AIA-i-E, opera especificamente sobre a articulação universidade-empresa, que atravessa várias dimensões ao mesmo tempo.

A multirrelacionalidade torna-se operativa na matriz que apresento de seguida. O importante da estrutura é isto: cada AIA-i opera numa dimensão institucional específica, mas articula-se com os demais através das vias direcionais do ecossistema, e cada dimensão de alcance é atravessada pelas três transversais com expressão própria. Essa complexidade articulada é exatamente o que o inventário simplifica e, ao simplificá-la, perde. Reduzir o modelo a uma tabela de correspondências um para um seria cómodo, mas falsearia como opera de verdade.

8.4A matriz operativa cinco por cinco

Chego ao dispositivo que sintetiza o capítulo. A matriz de cinco por cinco resulta de cruzar as cinco dimensões de alcance, nas linhas, com os cinco AIA-i institucionais, nas colunas, o que produz vinte e cinco células operativas. Cada célula representa a operação de um AIA-i específico numa dimensão de alcance específica. Mas —e isto é decisivo— a matriz não afirma que as vinte e cinco células devam ativar-se. Afirma algo mais subtil: que a instituição pode ler nela o seu próprio padrão operativo e comparar a sua maturidade.

As células não são todas iguais. Algumas são operativamente principais: o AEI na dimensão pessoal e na subdimensão académica da institucional, onde o acompanhamento epistémico é o coração do trabalho. Outras são secundárias: o AEI na dimensão internacional, como articulação com redes, opera mas não é o seu centro de gravidade. E outras são, simplesmente, zero: um AIA-i que não opera de maneira relevante numa dimensão dada, pelo menos na maturidade atual da instituição. A matriz usa-se em dois planos. No diagnóstico, a instituição preenche-a com o seu estado atual e observa o que aparece: concentrações, vazios, articulações débeis. No planeamento, prioriza células para investimento sucessivo segundo esse diagnóstico, sem pretender ativá-las todas ao mesmo tempo. É um dispositivo de visualização do modelo, não um receituário de implementação: cada universidade a particulariza à sua própria realidade.

O capítulo dezasseis desenvolverá o diagnóstico institucional usando esta matriz como instrumento, e o capítulo dezassete particularizá-la-á à escala de uma unidade académica. Por agora basta reter que a matriz converte uma ideia abstrata —a articulação multirrelacional— em algo que uma instituição pode desenhar, olhar e discutir numa sala de reuniões.

8.5A iteracção como articulador transversal da matriz

Resta explicar o que mantém unida a matriz, porque uma grelha de células, por si só, volta a ser um inventário com outra forma. O que a articula é a iteracção, que opera como critério de coerência entre as células e entre os componentes do modelo. Cada célula deve poder reconstruir-se como um ciclo iteractivo: um dispositivo —o AIA-i— a operar num plano —a dimensão— sob governança —os critérios do modelo—, com intervenção significativa dos atores institucionais e rastreabilidade das decisões. As células que não satisfazem esse critério são células passivas, de mero uso, e não células ativas do modelo, ainda que a instituição as marque como ativas na sua tabela.

A elevação da iteracção a princípio articulador transversal, na versão 2.0.3, responde a um achado operativo concreto: sem a iteracção como critério comum, o modelo fragmenta-se em componentes que perdem coerência entre si, e volta a ser o que não quer ser. A iteracção articula a matriz, articula as dimensões, articula os AIA-i e articula a instituição com o modelo. O capítulo seguinte formaliza esta categoria dentro do vocabulário nuclear, precisamente como categoria-ponte entre o plano cognitivo individual e o plano institucional sistémico.

8.6Consequência metodológica do modelo articulado

Fecho com o que tudo isto implica na prática, porque operar com um modelo articulado e não com um inventário tem consequências metodológicas concretas em três planos. No diagnóstico institucional, a universidade diagnostica com a matriz operativa e não com uma lista de cumprimentos: o resultado é um padrão —concentrações, vazios, articulações débeis— e não um agregado de casas marcadas. Na particularização a uma unidade académica, a faculdade lê o modelo a partir da sua própria escala com a mesma matriz, identifica as células pertinentes à sua realidade e formula a sua trajetória sem esperar que o modelo completo se implemente de uma vez.

E na política viva, a revisão semestral opera sobre a matriz, sobre as articulações entre AIA-i, sobre as dimensões transversais e sobre a AIUAT, não sobre uma lista de atividades. A política viva não atualiza um cronograma: atualiza a leitura institucional do modelo e modifica as decisões em consequência. O capítulo quinze desenvolvê-la-á com métricas relacionais que o modelo articulado torna verificáveis. O ponto é que esta é a diferença última entre um inventário e um modelo: o inventário revê-se riscando o que está feito; o modelo revê-se relendo a coerência do conjunto.

Um inventário tranquiliza porque se pode completar; um modelo exige porque nunca se acaba de articular. Mas só o modelo permite que uma universidade saiba por que faz o que faz, e o possa defender, rever e sustentar quando o contexto mudar. Essa é a aposta de SinergIA, e a matriz de cinco por cinco é o seu rosto visível.

Mas um modelo articulado só é tão sólido quanto o vocabulário que o sustenta. Se os atores institucionais entendem coisas distintas por «iteracção», por «sinergia» ou por «sobredependência», a articulação desfaz-se no primeiro desacordo. O próximo capítulo estabiliza esse vocabulário nuclear: as poucas categorias sem as quais o modelo não se pode pensar.